O que é RPG?

Todos já sonharam um dia em ter poderes mágicos ou ser um grande herói. A fantasia é um gênero presente em muitos dos nossos produtos culturais e alimenta o imaginário de indivíduos de todas as idades, oferecendo uma fuga da realidade dura e entediante. Agora imagine se, ao invés de ler um livro de fantasia, você pudesse participar de sua história, tomando todas as decisões importantes que vão interferir no desenrolar da trama. Foi pensando nesse objetivo que o role-playing game (RPG) foi criado, alterando para sempre o mundo dos jogos. Com a pandemia que surgiu em 2020, muitas atividades precisaram se adaptar ao distanciamento social e o RPG também. Mesmo que criado como um jogo de tabuleiro presencial, seus jogadores mostraram criatividade ao levar o RPG para o ambiente virtual, explorando ferramentas e mecanismos que permitem aproveitar o jogo ao máximo, mesmo que online. 

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A história do RPG

O RPG é um jogo que permite que você crie e interprete um personagem, que será objeto central de uma narrativa. Com esse personagem, você pode explorar mundos que não existiriam de outra maneira. O primeiro RPG a ser lançado oficialmente foi o sistema medieval fantástico de Dungeons & Dragons (Masmorras e Dragões), em 1974, por Gary Gygax e Dave Arneson, nos Estados Unidos. Baseado em obras literárias como O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, e em jogos de tabuleiro conhecidos como Wargames, o D&D, como é hoje comumente conhecido, inovou ao transportar seus jogadores para cenários nos quais é possível viver grandes aventuras. Sua mecânica simples e envolvente conquistou corações por todo o mundo, dando início a uma era de jogos narrativos. Publicado pela Wizards of the Coast, o D&D é um dos sistemas de RPG mais usados e conhecidos pela comunidade, especialmente após o lançamento de sua 5ª edição, que apresenta uma versão mais otimizada e simples, voltada para inserção de novos jogadores. 

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O primeiro RPG teve como base o universo de O Senhor do Anéis, de J. R. R. Tolkien. Foto: Google Books.

No Brasil, as publicações de D&D são feitas pela Galápagos Jogos. Apesar de haver uma infinidade de livros e acessórios para jogo - como mapas, grids, miniaturas, entre outros - nada disso é necessário para que o RPG se desenvolva. Isso porque o jogo acontece principalmente na imaginação de seus participantes, então papel, caneta e conhecimentos básicos do sistema são o suficiente para algumas horas de diversão.

 

Como jogar?

Sendo o RPG um jogo narrativo, antes de dar início, um dos participantes assume o papel de mestre ou narrador, que é o responsável por preparar e guiar a história para os demais jogadores. Essa preparação pode levar alguns minutos ou algumas horas, dependendo da experiência e da familiaridade com a história. O narrador é uma figura onipotente e onipresente, que sabe de todos os acontecimentos e os revela gradativamente, à medida em que o grupo avança na história. O papel dos jogadores, em contrapartida, é criar personagens para interagir com o ambiente e com as demais criaturas da narrativa. 

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“O D&D é um jogo de fantasia que utiliza a imaginação. Em parte, ele envolve a interpretação, em outra ele é uma brincadeira narrativa, mas também abrange a interação social, aspectos dos jogos de estratégias, sem mencionar as jogadas de dados. Você e seus amigos criam personagens que se desenvolvem e evoluem a cada aventura concluída. Um dos jogadores será o Mestre, que controlará os monstros e inimigos, descreverá o ambiente, julgará as ações com base nas regras e criará as aventuras. Juntos, o Mestre e os jogadores serão responsáveis pelo jogo.” Livro do Jogador: livro de regras básicas 1, v.3.5

Exemplo:

 

Mestre: Através dos portões de grade, vocês veem uma sala mal iluminada. No centro, há um pedestal onde uma gema vermelha repousa cintilante. O que vocês fazem?
Jogador 1: Eu conjuro uma mão mágica, que se materializa no ar e flutua até a gema.
Jogador 2: “Espere! Pode haver armadilhas! Deixe-me investigar o local.” Eu acendo uma tocha e começo a procurar indícios. 
Mestre: Você precisa fazer um teste de investigação. 

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A principal diferença dos demais jogos é que em sua estrutura não há espaço para competitividade - o objetivo principal do jogo não é vencer ou perder, mas construir uma narrativa em conjunto, alcançando metas dentro da história, como recuperar um item perdido ou salvar o mundo de um fim trágico. Isso estimula o vínculo entre o grupo de participantes e permite que todos possam ser úteis em algum momento da trama.


Apesar de não depender de muitos aparatos, o RPG possui uma estrutura clara, que oferece aos jogadores uma base para o desenvolvimento da história e as capacidades de cada personagem. Por mais que ideia do jogo seja permitir que os participantes tomem decisões e façam basicamente qualquer coisa, regras bem definidas possibilitam que cada etapa tenha seus desafios para ser cumprida. Portanto, existem três âmbitos importantes no RPG - o sistema, o cenário e a campanha ou aventura. 

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Vampiro: A Máscara é um cenário de terror com sistema baseado em Storyteller, lançado em 1991. Foto: Editora White Wolf.

O sistema consiste em todas as questões mecânicas do jogo que determinam se uma ação foi realizada com sucesso ou não. Isso permite que o jogo aconteça de forma imparcial, pois, na maioria dos sistemas de RPG, o resultado depende da rolagem dos dados. Dungeons & Dragons consiste em um sistema, assim como o sistema brasileiro Tormenta 20 ou o de Storyteller de Vampiro: A Máscara.


Já os cenários são relativos ao mundo que será experienciado pelos jogadores. Uma história de terror possui uma ambientação diferente de uma aventura medieval fantástica ou uma perseguição pela floresta amazônica, por exemplo. Sendo assim, o cenário contribui para a imersão e o desenvolvimento das campanhas. No Brasil, encontramos ainda cenários de inserção histórica, por exemplo, como é o caso de Entradas e Bandeiras e A Bandeira do Elefante e da Arara, que levam seus jogadores para a época do Brasil Colonial.
 

As campanhas, por sua vez, são as histórias vividas pelos personagens. Basicamente, é o roteiro que o narrador vai seguir enquanto guia jogadores pelo cenário. Nas campanhas estão contidos diversos non-player characters (NPCs), ou personagens que não são controlados por jogadores, com os quais é possível interagir. Há também mapas a serem explorados, vilões para combater e muito mais.

 
 

Por que o jogo é

envolvente?

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O ato de brincar é algo que transcende nossa humanidade e cultura. As atividades lúdicas, como as brincadeiras e os jogos fazem parte do comportamento de diversos animais e civilizações antigas. É uma tradição universal. Na sociedade contemporânea, os jogos e brincadeiras não ficam restritos à infância - encontramos pessoas de todas as idades empenhados em atividades do tipo - o futebol de domingo, o baralho com os amigos ou até mesmo jogos eletrônicos. 
 

Isso não é sem razão, pois o prazer do jogo não está apenas nos momentos divertidos que ele proporciona. Além de ser uma atividade voluntária, quando jogamos, entramos em um novo ambiente: o território do jogo. O historiador Johan Huizinga¹ definiu esse território como círculo mágico. É dentro desse espaço que o jogo vai se desenrolar e nele apenas as regras do jogo tem poder, ou seja, sob a perspectiva do autor, as relações sociais cristalizadas do mundo real não têm mais tanta validade. O círculo mágico pode ser um espaço físico, como um campo de futebol ou tabuleiro de xadrez, ou imaginário, como o espaço criado pela narrativa e imaginação dos jogadores de RPG. 

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Em seu livro Homo Ludens (2000), Huizinga explica que o círculo mágico é essencial para a formação de um vínculo entre os jogadores. Ao jogar, os participantes compartilham uma experiência que os aproxima, pois passam a ser um grupo. Isso os diferencia das outras pessoas. Nas palavras do autor, os jogadores sentem-se “separadamente juntos”. Por ser um espaço controlado com regras pré-estabelecidas, o ambiente do jogo permite observar e compreender diferenças, além de gerar conflitos que não provocam consequências sérias na vida real. 


O RPG tem como base o diálogo e foi desenvolvido de forma que os desafios da narrativa não possam ser superados sem trabalho em equipe. É um jogo de negociação, antes de qualquer coisa, pois os jogadores estão a todo momento negociando suas ações com o mestre e com outros membros do grupo. A chance de ser quem quiser em um universo com regras diferentes da realidade é o que gera tamanho envolvimento dos RPGistas, desenvolvendo vínculos que muitas vezes cruzam as barreiras da realidade.


No que diz respeito às barreiras entre real e imaginário, em publicação² da Revista Mais Dados, o autor Matheus Capovilla Romanetto, explica que o círculo mágico do RPG possui uma estrutura permeada por três “planos”. O primeiro deles seria o plano real, ao qual os jogadores pertencem. É nesse plano que residem as relações verdadeiras dos participantes, portanto, está acima da narrativa. O segundo é o plano fictício, e como o próprio nome indica, diz respeito às interações dos personagens entre si e a tudo que acontece dentro da história. Já o terceiro, é denominado normativo. Nesse plano, os envolvidos não atuam como indivíduos nem como seus personagens. São jogadores abstratos, que dialogam entre si para manter o desenrolar da trama. Por isso, o progresso no RPG depende tanto da comunicação entre personagens, jogadores ou ambos. Fluir entre o domínio lúdico e o mundo real é imprescindível para o desenvolvimento do jogo.

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Exemplo:

 

Mestre: Ao passar pelo lago, uma Anomalia da Água emerge e encara vocês com seus olhos translúcidos e ameaçadores, pronta para dar o bote. Vocês estão sendo atacados, o que vão fazer?
Jogador 1: Eu vou usar minha ação para fazer o truque Rajada de Veneno!
Jogador 2: Não faça isso! Eu li uma vez que essa criatura é imune a esse tipo de dano. 
Mestre: Mas seus personagens não sabem disso. 

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Arte por Giovanna Martins.

 

O RPG no Brasil

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O RPG chegou ao Brasil na década de 1980 e nos anos 2000 ganhou força, quando sistemas nacionais como Tormenta 20 e 3D&T se solidificaram no país. “Foi quando eu comecei e foi uma era de ouro. Tinha muitos eventos e muito jogo. Mas passou aquele período e por muitos anos ninguém sabia o que era RPG”, relembra o jogador Eduardo Luiz, 34.   

 
De fato, em 2001 o RPG nacional sofreu um forte impacto com o assassinato da estudante Aline Silveira Soares, em Ouro Preto, Minas Gerais. O crime foi ligado erroneamente ao RPG Vampiro: A máscara. A repercussão que o caso ganhou e a sua cobertura sensacionalista enraizou o preconceito de que os jogadores estariam envolvidos com drogas e rituais. “Segundo o Ministério Público, os estudantes seriam usuários de drogas e adeptos de seitas macabras. Especula-se que Aline teria escolhido um vampiro para interpretar no jogo de RPG e acabou punida com a morte.”, escreve Alexandre Nascimento em matéria para O Tempo. Os acusados foram inocentados em 2009 e o crime não foi solucionado. 

Atualmente, o RPG tem ganhado cada vez mais espaço nos meios virtuais. Diferente da “geração xerox” dos anos 1990, em que narradores precisavam carregar livros, imagens, mapas e miniaturas para onde fossem, hoje tudo está a um clique de distância. Graças à internet, há um grande empenho das comunidades e fóruns online para disponibilizar traduções não oficiais, arquivos em PDF dos livros e aventuras criadas por jogadores dispostos a compartilhar.

A série Stranger Things, lançada em 2016 pela Netflix, também contribuiu para a popularização do jogo no país e no mundo, juntamente com a indústria de jogos eletrônicos, que já há algum tempo, se apropriou do gênero. As referências à Dungeons & Dragons e as muitas cenas da série relacionadas ao jogo coincidiram com o aumento da produção de conteúdo de RPG na internet, ajudando a trazer de volta a atividade aos holofotes.

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A série de terror e aventura, Stranger Things, já possui três temporadas

disponíveis no catálogo da Netflix. Foto: Netflix.

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Em 2018, a Wizards of the Coast lança em parceria com a Netflix o conjunto inicial de Stranger Things Dungeons & Dragons, que conta com fichas, miniaturas, dados e a aventura jogada na série. O que antes era a cultura “nerd” dos anos 1980 hoje faz parte da cultura popular.  


O  stream, ou a transmissão online, também tem promovido cada vez mais os jogos narrativos. Gigantes do Youtube e da Twitch, como Cellbit, trazem grande visibilidade com suas livestreams de RPG, que chegam a ter mais de 75 mil visualizações. Além disso, seu financiamento coletivo para lançar o jogo do RPG autoral Ordem Paranormal: Enigma do Medo foi um dos maiores no país, batendo cerca de 800% da meta estabelecida. 

 

A produção de conteúdo brasileira tem crescido cada vez mais graças ao espaço que o RPG ganha na internet com novas publicações de sistemas e cenários - como o Skyfall RPG do mestre Pedro Coimbra, que nos aprofundaremos mais adiante. 

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¹      HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. O jogo como elemento da cultura. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000. 

²     ROMANETTO, Matheus Capovilla. Jogo e Comunicação: RPG como Mídia. Revista Mais Dados, Uberlândia, v. 2, n. 2, p. 54-84, 2015.

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