A comunidade do RPG online

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O RPG possui uma comunidade ativa e empenhada, com um forte senso de coletividade. No ambiente virtual, a rápida troca de informações e acesso a conteúdos faz com que essas características sejam ainda mais acentuadas. Criou-se uma rede de jogadores, criadores de conteúdo e grupos que estão sempre conectados. Isso traz consequências positivas ao disseminar a cultura do RPG e permitir que cada vez mais pessoas tenham acesso à livros e suplementos - mesmo que muitas vezes seja de forma ilegal. Jogadores de todo o país podem se reunir e se identificar uns com os outros graças à tecnologia. Mas o mundo fantástico e colaborativo do RPG ainda carrega problemas da realidade. Onde muitos jogadores encontram uma válvula de escape, outros ainda pisam em ovos para encontrar espaço na comunidade. 

Não é novidade que o RPG, especialmente antes do advento

da internet, é um hobby relativamente elitista. Primeiro, porque os materiais

são caros. O Livro do Jogador de D&D 5ª edição pode ser encontrado

hoje por um valor aproximado de R$150,00, enquanto livros recém lançados

chegam a quase R$300,00. O mesmo acontece com sistemas brasileiros.

Quando o jogo surgiu no país, os materiais não eram apenas caros, mas

precisavam ser importados e ficavam restritos àqueles que possuíam recursos

e conhecimento para entender o livro em inglês. Hoje, é possível encontrar

os mais diversos materiais na internet, muitas vezes traduzidos pela própria

comunidade que não quer esperar pelos lançamentos das editoras. 

Mas como efeito dessa falta de acesso, o RPG por muito tempo ficou limitado à um grupo específico de jogadores, em sua maioria homens brancos, héteros e cisgênero. Isso criou uma grande hegemonia na comunidade que ainda precisa ser desconstruída. Muitas minorias encontram dificuldade de serem levadas a sério e possuem pouco espaço dentro da sociedade do RPG. Machismo e LGBTfobia são alguns dos principais problemas do meio e podem ser experienciados tanto no RPG virtual quanto no presencial. 

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RPG sempre foi tido como “coisa de menino”. Essa cultura se perpetuou de tal forma que até hoje a comunidade sofre com problemas de representatividade. Isso tem mudado aos poucos, mas ainda é difícil encontrar jogadoras e narradoras de RPG. Na internet, isso ganha outras proporções, pois o ambiente permite que seja ainda mais fácil disseminar discursos de ódio sem sofrer as mesmas consequências da realidade. É o que relata Thiale, que tem o RPG como seu hobby favorito. Em sua história como RPGista, ela precisou passar por diversas situações desagradáveis com outros jogadores em mesas presenciais, que a fizeram se afastar do RPG por mais de cinco anos. Thiale conta que ainda hoje sofre com invasões de privacidade e machismo ao procurar por uma mesa virtual:

RPG e diversidade: reflexões e dilemas

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Muito se ouve sobre o estereótipo de “nerd”, em especial no meio do RPG. Não há uma definição clara de como caracterizar essas pessoas, mas elas são associadas ao grande interesse que nutrem por determinados assuntos, que muitas vezes não pertencem à uma cultura de massa, como revistas em quadrinhos ou o próprio RPG. Nos produtos culturais, como séries e filmes, vemos a representação do nerd como alguém à margem dos padrões, por vezes excluído de grupos sociais. Muito se perdeu dessa concepção, especialmente depois que os produções, tidas antes como “coisa de nerd”, entraram na cultura popular e hoje faturam milhões, como os filmes de super-heróis.

Os considerados nerds nos anos 1980 são adultos atualmente, mas muitos deles parecem carregar consigo um forte conservadorismo, como defende Guilherme Brito, membro da comunidade LBGT e RPGista há mais de uma década. Esse não é um problema exclusivo da comunidade de jogos, mas as questões da sociedade como um todo são frequentemente refletidas em grupos menores de pessoas, como o RPG. 

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Mas a falta de diversidade no RPG não está no fato de haverem poucas minorias envolvidas com o jogo e sim na forma como a comunidade recebe essas pessoas. Marcos Vinicius narra em uma mesa voltada exclusivamente para jogadores LGBT porque acredita que apesar de haver os mais diversos tipos de pessoas no RPG, é possível encontrar muita toxicidade e opressão nas mesas:

Essa separação entre mesas tidas como mistas e aquelas focadas em um público específico é uma questão polêmica e que divide opiniões: alguns jogadores defendem que o fato de mulheres e LGBT’s preferirem jogar com seus semelhantes é segregador e acentua as diferenças. Como relata Thauane Joviano, 27, administradora da Guida Alliessel, a tentativa de criar mesas distintas para minorias não trouxe bons resultados para o projeto e, apesar de haver poucas mulheres ativas na Guilda, todos jogam juntos, independente do gênero ou sexualidade.

Mas há também aqueles que não escondem o descontentamento com as comunidades e preferem jogar com pessoas com quem se identificam. Há muitas postagens em grupos de RPG com oferecimento de mesas apenas para o público feminino ou LGBT, como é o caso da mesa de Marcos Vinícius. Os comentários nas publicações chegam a ser repetitivos - muitos jogadores defendendo o ponto de vista de que essa segregação em si é preconceituosa. Por outro lado, além de fazer parte da liberdade individual de cada um escolher com quem se divertir, jogos colaborativos dependem de fatores chave como a comunicação e o conforto para ser quem você é. E nem sempre é fácil encontrar isso para as pessoas que estão à margem dessa hegemonia. Kamyla Katrrine Araujo, 30 anos, é mãe, LGBT e narradora há 10 anos. Apesar da sua experiência com o jogo, ela precisava lidar constantemente com jogadores que a diminuíam e questionavam seus conhecimentos de RPG.

Livia da Silva passou por situações muito semelhantes. Ela começou a jogar RPG quando era criança, por recomendação médica como uma forma de ajudar no TDAH (Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade). Assim como já aconteceu com Thiale e Kamyla, Lívia já foi convidada para mesas apenas para ter seus conhecimentos de RPG testados. Hoje, a estudante de audiovisual é uma narradora com muita bagagem, mas isso não impede que ela passe por situações em que sua autoridade na mesa é questionada por jogadores:

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Apesar das muitas vantagens, jogar online se mostra uma grande roleta russa de possibilidades, em que você pode encontrar sua mesa dos sonhos ou mergulhar em um pesadelo de preconceitos e autoritarismo. “Se você é preconceituoso você nem deveria estar jogando RPG, porque é um jogo em que você precisa lidar com diferentes situações, reais ou não”, conclui Renan Fidelis, 25, também jogador na mesa LGBT de Marcos Vinicius.

É importante lembrar que a questão não é exatamente com quem se joga, mas sim o quão confortável você está com as pessoas da sua mesa. Afinal de contas, as campanhas mais longas podem durar anos e para isso é necessário que haja um bom entrosamento entre o grupo. Muitas vezes o conforto do qual falamos vem apenas com a sensação de compreensão mútua que há quando você está com seus semelhantes. O RPG é uma partilha. Jogar em grupo é diferenciar-se dos demais. E estar em um grupo capaz de entender suas dores particulares, intensifica esse vínculo e promove benefícios que vão além das horas de diversão. 

Como Lívia menciona em sua fala, há sim pessoas dispostas a fazer do RPG um lugar seguro e receptivo para todos. A própria Wizards of the Coast tem feito modificações em sua lore, que carregava alguns preconceitos com as raças dentro do jogo, como os Orcs. Eles sofriam estigmas de serem burros e violentos, além de terem atributos negativos de inteligência. Muitos criticam a mudança, mas ela reflete que não apenas os jogadores, mas as editoras também têm pensado seu conteúdo para trazer mais representatividade e inclusão ao jogo. Eduardo defende que estamos caminhando para uma sociedade melhor porque o RPG é um jogo recente e atrai um público cada vez mais jovem: “Se você tem 40 anos, você é um ancião na comunidade. E o pessoal mais novo tende a ser mais acolhedor, mais liberal”.

Nos bastidores do RPG

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Existem outros espaços e modos de se jogar RPG que podem trazer mais segurança aos participantes. É o caso das Guildas, como a Alliessel, que possui um ambiente monitorado e regras criadas para garantir o respeito mútuo entre jogadores. Já o mestre de aluguel é uma boa alternativa para grupos que desejam jogar mas estão sem narrador, ou jogadores solo que procuram uma mesa séria e engajada, com qualidade narrativa e muitos recursos virtuais. Entrar em grupos no Facebook é a forma mais comum de encontrar mesas e informações sobre o jogo. O grupo D&D 5E - RPG BRASIL tem mais de 40 mil membros e é constantemente moderado para tornar o espaço mais civilizado e receptivo. Confira abaixo as entrevistas com RPGistas que tentam fazer desses nichos do jogo mais acessíveis para todos:

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